POANCESTRAL E O 26 DE MARÇO: MUITO ALÉM DA CIDADE DA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA (POR POANCESTRAL)

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Roselena Colombo, Estela Benevenuto, Fabiana Sanguiné, Ana Celina Figueira, João Mauricio Farias e Marco Mello (*)

Afirmar que Porto Alegre está fazendo 254 anos reflete uma tradição cujo objetivo é apagar a longa história de ocupação humana da cidade por povos originários

Enquanto o 8 de Março surge das ruas em revolta, dia 26 é imposto pelos palácios. Uma data de apagamento dos que vivem aqui há milhares de anos, que dão nome ao rio mas são expulsos da terra, dos descendentes de africanos escravizados que constroem há séculos a cidade feita para brancos, das necessidades do povo das periferias, das pessoas Lgbtqia+, de todes que sentem opressão na cidade fake das grandes empreiteiras que efetivamente governam, tendo o prefeito Melo como gerente modelo.

Sabemos que há uma série de polêmicas envolvendo a data exata, mas no geral se atêm a detalhes de uma mesma matriz de pensamento, eurocentrada. Em nossa opinião, afirmar que Porto Alegre está fazendo 254 anos reflete uma tradição cujo objetivo é apagar a longa história de ocupação humana da cidade por povos originários, desde 12.000 anos, pelos menos, como demonstram pesquisas arqueológicas recentes. Além disso, invisibiliza as formas de ocupação violenta da cidade – desde a expulsão contínua de comunidades indígenas, quilombolas e periféricas – até a destruição de vestígios dos seus legados tecnológicos e culturais. Tal situação não só se mantém como é acelerada por um projeto de cidade que não poupa nem mesmo o patrimônio do passado colonialista. Entre outras emendas aprovadas ao já absurdo Plano Diretor, a emenda 9 permite o chamado “fachadismo”, que contraria lei federal sobre o tema ao autorizar a construção de prédios imensos em edificações tombadas mantendo somente a fachada. É o poder das mega empreiteiras que se constituem, de fato, em donas da cidade e ditam as regras, a exemplo do “novo” Plano Diretor que pretende legalizar a destruição do patrimônio histórico e ambiental de Porto Alegre.

Se a situação das comunidades indígenas e quilombolas sempre foi de resistência heroica à aniquilação – na atual arquitetura da cidade dos sonhos de grupos como Melnick, Maiojama, Maisonnave, Zaffari & Governo Melo não há espaço nenhum para elas, guardiãs da memória, saberes e tecnologias ancestrais e das poucas matas que ainda restam. Nesse sentido a defesa das lutas concretas desses povos é tarefa urgente, como a legalização definitiva dos Quilombos Urbanos e dos Territórios Indígenas retomados e construção de escolas indígenas, entre tantas demandas e necessidades.

Ao invisibilizar tanto a ocupação milenar de povos originários quanto a centralidade do trabalho e das culturas afro-brasileiras na construção da cidade, omitem heranças que usufruímos no dia-a-dia, ignoradas pelo apagamento intencional pelas classes dominantes e a oficialidade. Ser e estar em Porto Alegre remonta à inteligência ocupacional desses povos. O próprio nome – Guaíba, algo como “encontro das águas” na língua do tronco tupi-guarani – soa estranho e deslocado tendo como horizonte a historiografia oficial.

Mas falar desses povos é também falar das mulheres que os constituem. Mulheres que em todas as grandes lutas de suas comunidades e outras da classe trabalhadora, sempre estiverem à frente das mesmas. Nesse sentido, o 8 de março, que inclusive foi protagonista da primeira revolução operária vitoriosa da história, serve também para nos lembrar o quanto a historiografia, e não somente a oficial colonialista, ainda apaga o papel das mulheres nos rumos da humanidade. No entanto, na contramão dessa tendência hegemônica a luta contra a opressão persistiu e hoje é possível percebê-la também na profusão de pesquisas, experiências pedagógicas e debates pautados pelas mulheres dentro dos movimentos sociais.

Por fim, falar sobre mulheres na nossa cidade é também denunciar e exigir soluções à violência doméstica e feminicídio. Somente em 2026, somos 23 mulheres mortas no Rio Grande do Sul, em sua maioria com solicitação de medidas protetivas e – apesar de esforços isolados – não são eficazes e sintetizam a precariedade de políticas públicas para a defesa da vida, tanto das mulheres, quanto das comunidades indígenas e negras, que sofrem com um genocídio que se arrasta há séculos.

Queremos, precisamos, desejamos uma outra cidade, plena de matas & gentes da periferia no centro de tudo! Este centro/periferia é vivo e apresenta para a cidade múltiplas linguagens, cujos políticas implementadas pela extrema direita ao longo dos últimos anos aprofundam a negação e extermínio dessa memória diversa e ancestral.

Devemos rememorar sempre: Porto Alegre é uma cidade negra, indígena, inclusiva em sua essência.

(*) Roselena Colombo é professora de História aposentada da rede pública municipal, integrante do Coletivo de Professoras e Professores de História da rede /PoA (CPHIS) e do Projeto de Extensão/Ufrgs PoAncestral e escritora; Estela Benevenuto é professora da rede pública municipal, Coordenadora do EEABI da EMEF Martim Aranha, Doutoranda em História/Ufrgs e Diretora Geral do Sindicato dos Municipários de PoA (Simpa); Fabiana Sanguiné é auxiliar de Enfermagem no Hospital Presidente Vargas, Diretora de Ações de Combate à Opressão do Simpa e Ativista do MML – Movimento Mulheres em Luta; Ana Celina Figueira é professora do Bacharelado em Museologia/Ufrgs, Coordenadora do PPG em Museologia e Patrimônio e do Projeto de Extensão/Ufrgs Poancestral; João Mauricio Farias é Indigenista, pesquisador, Doutorando em psicologia Social/ Ufrgs e membro do Observatório Indigenista; e Marco Mello é professor de História e Filosofia da rede pública municipal, membro do CPHIS (Coletivo de Professoras e Professores de História da rede /PoA) e integrante do Projeto de Extensão/Ufrgs PoAncestral

 

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